O último dia da NRF 2026 em Nova York consolidou o tema central de todo o evento: o fim do improviso. Saímos de uma era de “tentativa e erro” para um varejo de implementação consciente, planejada e baseada em dados reais. Se a tecnologia é o motor, o planejamento é o trilho. Foi um dia de menos alucinação e mais realismo, com debates sobre práticas já implementadas e impactos mensuráveis.
Gary Vaynerchuk: da ousadia ao pragmatismo
Até os mais disruptivos baixaram o tom para falar de realidade. Gary Vaynerchuk, conhecido por seu estilo provocador, trouxe conselhos sóbrios sobre o digital: não basta volume, é preciso diferencial claro.
A atenção hoje é uma métrica operacional; não adianta postar 20 mil vezes se não houver relevância. O foco é alocar orçamento onde o engajamento é efetivo e gera venda incremental.
Paixão e propósito nas marcas esportivas
North Face, Vans e Timberland mostraram como a força das marcas esportivas está enraizada na paixão de seus colaboradores, muitos deles praticantes dos esportes que representam. Esse alinhamento entre propósito individual e causa coletiva fortalece a identidade das marcas e cria comunidades autênticas.
A JD Sports complementou com sua estratégia de curadoria sneaker, ilustrando como foco em categoria e cultura pode gerar crescimento sem ampliar complexidade.
McDonald’s Brasil: ousadia que vira referência
O case do McDonald’s Brasil (Arcos Dorados) foi destacado como exemplo de ousadia e competência local. A mudança de nome para “Méqui” e outras iniciativas inéditas mostraram como a filial brasileira conseguiu se diferenciar globalmente, tornando-se referência de inovação dentro da rede, justamente por ter liberdade criativa e execução consistente.
Shark Ninja: obstinação pela diferenciação
Entre os destaques mais curiosos, a Shark Ninja mostrou como transformar problemas cotidianos em soluções de mercado. Um aspirador que evita o acúmulo de cabelos e pelos na escova, liberando-os automaticamente e eliminando a necessidade de limpeza manual durante o uso, é apenas um exemplo da obsessão da marca por resolver problemas específicos dos consumidores. O resultado: líder absoluta no mercado de aspiradores de pó nos Estados Unidos, a marca alcançando 25% de participação no segmento de robôs multifuncionais em 2022 e chegando a 47% em aspiradores verticais em 2024, provando que diferenciação prática gera escala.
Estruturas invisíveis do varejo
Os painéis técnicos reforçaram que a inovação não está apenas na interface com o cliente, mas também nas camadas invisíveis da operação:
- Pagamentos digitais como infraestrutura de experiência, com o Brasil em destaque pela adoção avançada.
- IA aplicada à previsão de demanda e planejamento de turnos, reduzindo custos e variabilidade.
- Omnichannel sob teste de dados em tempo real, expondo gargalos de estoque e logística e exigindo integração plena.
Agentic commerce e o paralelo do gelo
A palestra final usou a metáfora do gelo para ilustrar a inevitabilidade do agentic commerce – o comércio mediado por agentes digitais.
Assim como o gelo evoluiu de produto natural para industrial e doméstico, o varejo precisa aceitar que agentes vão intermediar descobertas, transações e relacionamentos.
Negar essa evolução é correr o risco de “não conseguir vender gelo”.
Conclusão: execução consciente como legado
O último dia do NRF 2026 consolidou a ideia de que o varejo entrou em uma fase de execução consciente e planejada.
Seja na comunicação digital, na paixão das marcas esportivas, na ousadia de players locais ou na eficiência invisível das operações, o recado é claro: improviso já não tem espaço.
O futuro do varejo será definido por quem conseguir alinhar propósito, dados e execução com consistência.









