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JAPÃO – O que eu senti num passeio pelo outro lado do mundo

  • Foto de Edmour Saiani Edmour Saiani
  • Experiência do Cliente, Inovação, Tendências

Este ano tomei uma decisão estratégica: depois de mais de 30 anos indo ao Big Show do NRF, resolvi mudar de planos. Nos últimos 5 anos chego a Nova Iorque com a palestra Pós-NRF pronta e acrescento novidades vistas lá. Sempre aprendo, mas hoje, com a agenda do evento e a IA, fica fácil prever os temas e estudar desde outubro. Tenho acertado quase tudo e acrescentado poucos pontos novos.

Desta vez, Martha e eu trocamos inovação por tradição. Bora Japão. Bora Tóquio.

Fomos com um grupo muito bacana do Rio Grande do Sul, organizado pelo Elifas Vargas. Eu adoro os gaúchos, sempre fui muito bem recebido lá, principalmente pelos do interior. Foi muito boa a companhia.

 

Disclaimer: se for pra lá, lembre-se que lá é do outro lado do mundo mesmo. Me lembrei dos astronautas da Artemis que foram ao outro lado da lua. Eu cheguei à conclusão de que o Einstein descobriu a relatividade do tempo numa viagem pra lá. Tudo fica muito relativo.

É um dia pra ir, outro pra voltar. E o extremo: sair de Tóquio às 17h25 e chegar em Nova Iorque às 17h15, no mesmo dia em que você saiu. Não vou tentar explicar o que ainda não consegui entender. Só sei que perdi um dia no ano.

Chegamos – mortos e tortos.

Não, não paguei classe premium nem business. Pensando nas idas a Nova Iorque, falei: um dia e estamos bem. Ledo engano. Demora mais que isso. Cheguei alguns dias antes do evento e foi muito importante para o que o programa prometeu.

 

Primeiras impressões

O evento seria uma exploração à moda local. Foi metrô, trem-bala e perna. Há muito tempo eu não caminhava de 8 a 15 mil passos por mais de 5 dias.

Mas aí vem o primeiro fato importante sobre o Japão no quesito respeito. Moro em Pinheiros, São Paulo. A taxa de calçada com obstáculo é de 10 por quadra, no mínimo. No Japão encontrei uma em mais de 10 dias. Um problema em mais de 80 mil passos. Nem vou mencionar a limpeza exemplar. A pavimentação é irretocável.

Todos os sinais têm aviso sonoro quando estão abertos. Pra quem tem apenas 25% da visão como eu, isso não tem preço.

Por falar em sinais, primeiro mico da viagem: entrei numa coisa que ainda não sei se é loja de departamentos ou shopping, Yodobashi. Sabia que tinha Uniqlo, que é a minha loja de roupas, e queria saber onde era. Esqueci de dizer que não falo uma palavra em japonês. E a resposta veio com uma mão aberta e dois dedos da outra apoiados na mão aberta. Pra eu descobrir se era 5º ou 2º andar levou tempo. Mas era 7º: 5 mais dois em japonês. Primeiro mico logo na chegada.

Aliás, só não paguei outro mico porque, na ida do Aeroporto de Haneda ao hotel, fui avisado de que o Japão tem mão inglesa. Então, na escada rolante, fique à esquerda se não quiser ser atropelado por quem vem apressado à direita.

O metrô é um caso a ser explorado. É a única situação em que o respeito não é muito presenciado. Ninguém dá lugar para os mais velhos. E tive a oportunidade de passar por uma situação daquelas em que, quando tem muita gente no metrô no horário de pico, as pessoas literalmente espremem você para dentro para poder entrar. É surreal. Normalmente, quando eu estou em elevador cheio e entra muita gente, eu falo que a gente acaba fazendo sexo involuntário. No caso do metrô é estupro mesmo. Acho que nunca subi e desci tantas escadas e, infelizmente, nem todas rolantes.

O ideograma japonês que representa a pessoa 人, em versão popular, significa “gente que apoia gente”. São duas pessoas, uma apoiando a outra. Vale em todos os lugares no Japão, menos no metrô.

 

O varejo japonês

Tivemos uma oportunidade de vivenciar como pendular é o varejo no Japão.

Em Akihabara, bairro pop e dos eletrônicos, lojas maximalistas em todos os sentidos. Música alta, gente gritando – muitas vezes gemendo – para quem não sabe o que elas querem dizer, prateleiras abarrotadas de produtos com embalagens multicoloridas e usando todas as fontes possíveis. Deus salve o Google Tradutor, principalmente para Martha, que queria comprar makeup, skin care, etc.

Em Ueno, a gente se acha numa feira livre ou quermesse, difícil definir. Lojas dos mais variados ramos, vendendo os mais variados produtos. Uma 25 de Março em Tóquio.

Lá eu vi a coisa mais original da viagem. Um vendedor de doces gritando: informa que, se você der 1.000 ienes (aproximadamente 33 reais) para ele, vai receber uma caixa de doces surpresa. Depois verificamos que tem um valor muito maior do que se comprássemos os doces individualmente. É a loja mais cheia do bairro, obviamente motivada pelo evento em que o cara grita, dessa vez com sentido total.

Vendedor em Ueno
Vendedor em Ueno

Já em Ginza, um bairro de população de alto nível de consumo, as lojas são minimalistas como todas as lojas de luxo do mundo. Um formato engraçado é que cada prédio é uma loja. Às vezes com 5, às vezes com 7, às vezes com 9 andares. A grande maioria com um lounge de restaurantes no último andar.

 

Sabores e tecnologia

A comida japonesa que nós comemos no Brasil existe lá com uma diferença: os ingredientes são absolutamente frescos. É notável. O lugar mais surpreendente onde eu comi foi num restaurante com mesas e sofás como num Outback, só que a comida vem na mesa inteira, localizada ao lado da mesa. E, no mais original de todos, a esteira é um trem-bala. Você pede e já vem a comida. O trem-bala freia para que você tenha, como no metrô, a comida na posição perfeita para agarrar e comer.

Depois desses dias lá, fui comer sashimi aqui no Brasil num dos locais que considero muito fresco. Não é igual. Lá o atum é rosa. Aqui ele é vermelho sangue.

Outro lugar muito bacana no qual a gente foi se chama Dawn Café. Quem atende e entrega os produtos são robôs. Mas nada lá é inteligência artificial. Quem comanda os robôs são pessoas que normalmente não conseguiriam trabalhar numa loja por deficiências ou problemas que elas têm. Muito emocionante!

Dawn Café
Dawn Café

Do templo ao estádio

Fomos a Kioto outro dia e vimos templos maravilhosos. O mais impressionante não é o templo, que é o mais bonito, mas o que está em volta dele: o ambiente, a jardinagem. Muito impressionante como eles trabalham bem em contexto.

Fushimi Inari-taisha
Fushimi Inari-taisha

E no outro dia fomos a Yokohama. Os gaúchos, muito colorados, estavam excitados para ver o estádio onde o Inter foi campeão mundial. O Brasil também foi campeão mundial lá, em 2002. Mas o mais bonito é a beleza do lugar: um bairro completamente diferente de Tóquio, com muito jardim, muito verde (embora Tóquio também tenha muito verde) e com casas onde poderiam se passar vários filmes e onde muita gente deve ter vontade de morar. O Guto, que foi com a gente e mora no Japão, é um deles.

 

Shibuya e multidões

Para terminar e não encher a paciência de vocês, uma coisa muito impressionante. Todo mundo fala de Shibuya, um cruzamento por onde passam milhares, se não milhões, de pessoas todo dia. Mas Tóquio é assim o tempo todo. Muita gente.

Na verdade, o comportamento deles se assemelha muito ao daqueles cardumes em que a gente vê todo mundo indo para um lado, para o outro, como se fosse uma dança. Nos dias em que estivemos lá choveu muito, muitos dias de guarda-chuva o tempo todo. E uma coisa impressionante: ninguém bate em você na chuva. As pessoas devem ter um chip de navegação com hiper-sensor que as guia por todo lugar. É impressionante.

Cruzamento em Shibuya
Cruzamento em Shibuya

 

Hospitalidade japonesa

Detalhe: como eu vivo atendimento o tempo todo, estava muito ansioso para conhecer o omotenashi, que é a hospitalidade japonesa. Na verdade, eu só recebi um atendimento espetacular uma vez: da Yumi, vendedora de uma loja que faz travesseiros sob medida. Foi tudo o que eu esperava de um atendimento nesse nível. Na maioria das vezes, como em todas as cidades grandes que têm tráfego enorme, a atenção não é tão boa assim. Não testei o atendimento no interior, mas na capital é médio.

Quase me esquecendo: teve até terremoto enquanto a gente estava lá. Magnitude 4 e alguma coisa, mas nem sentimos. O cansaço era muito grande.

 

A volta

Pronto, era isso. Agora a volta.

O mais importante da volta é que no Japão não se faz mais raio X de bagagem. Faz-se ressonância magnética ou algo parecido. Dessa forma, você não precisa mais tirar o computador da mala para passar pelo raio X. Ops: ressonância magnética. Essa talvez tenha sido a coisa moderna mais útil da viagem.

Quando eu achava que tudo tinha acabado, lá vem a volta. Nunca cheguei e fiquei tão cansado tantos dias depois de uma viagem. Morto e torto. Mas feliz com essa novidade que entrou na minha vida!

 

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