Ponto de Referência

MAIS QUE LIDERAR! LIBERAR!

Como Comunidades de Marcas Simbióticas conseguem ter equipes voluntárias e não mercenárias

A conversa de que líder é diferente de chefe todo mundo já ouviu. Chefe manda, líder orienta, direciona e por aí a fora. Ok, entendido. Só que esse líder não causa mais o impacto necessário na atitude de quem trabalha com ele.
O novo líder não é mais o herói que constrói as ideias, orienta para a implementação e remunera quem faz o que ele determinou. Ao invés de ser o herói a ser seguido, o novo líder é mais parecido com o participante de uma comunidade. Segue e é seguido como todos da comunidade.  Apenas age de forma que ajude a entusiasmar essa comunidade a criar, além de implementar o que foi determinado.

Ele libera, não apenas lidera. Vou explicar.

Símbolos do que muda da velha para a nova liderança são dois filmes não muito recentes mas muito emblemáticos.

Se você assistiu a Sociedade dos Poetas Mortos admirou John Keating, interpretado pelo saudoso Robin Williams fazendo o papel de herói. Um tanto quanto inconsequente. Chegou numa organização conservadora, não falou com ninguém e dirigiu seus alunos a adotar uma postura oposta ao que a organização orientava. Herói, mas mais parecido com lobo solitário.

Melhor era a Marianne Sägebrecht no papel de Jasmin Münchgstettner em outro filme que se você não assistiu, recomendo que assista: Bagdad Cafe. Uma líder que age. Não fala. Apenas dá exemplo. É influenciada pela influencia a comunidade em que atua a criar, implementar, evoluir de uma forma muito diferente do usual.

O velho método da marca com missão – que se originou nas hostes militares, metas impostas e remuneração por meritocracia que valoriza apenas quem implementou o que foi imposto é uma fábrica de times mercenários. Calma, sei que tem um exagero aqui. Todo mundo aprendeu a trabalhar assim e parece blasfêmia questionar esse modelo. Não é blasfêmia.

Marcas que querem provocar e inspirar suas equipes para migrarem para o novo mundo adotam uma estratégia muito diferente. Chamo essas marcas de marcas simbióticas. Escrevi um livro para explicar o que elas têm que fazer para merecerem esse título. Se quiser o livro envie um email para [email protected] que eu envio para você. É digital.

O QUE AS MARCAS SIMBIÓTICAS FAZEM?

Ao invés de missão, elas colocam uma causa na base da sua existência. Todo mundo chama de propósito. Eu prefiro causa, que me remete mais ao coletivo. As pessoas abraçam causas.  Marcas simbióticas definem claramente o que querem ajudar a melhorar no mundo. Mas o melhor de tudo é que elas começam por ajudar quem trabalha nelas. Fazem o bem antes de mais nada. Para elas mais importante do que o por quê é o pra quê? Elas sabem que têm que exercer o direito e obrigação da “cidadania empresarial”. Não basta serem geradoras de lucro. Têm que ser agentes de mudança nesse mundo que tanto precisa de quem pare de apenas tirar valor dele, mas ajude a melhorá-lo. Com a causa claramente explicitada, a liberação passa a ser possível e produtiva. Ao invés de metas impostas, a força das marcas simbióticas está na construção de metas com toda a comunidade. Já há quem defenda que metas não são necessárias se a comunidade entende a causa e está alinhada com ela. Eu fico com a construção coletiva da meta. Assim ela é de todos e não precisa ser cobrada.

Outra liberação: ao invés de plano de carreira marcas simbióticas pensam no plano de vida de cada pessoa que compõe a comunidade. Se cada pessoa do time entender que seus líderes não querem aprisioná-la, mas liberá-la para uma vida melhor, ela vai decidir onde quer trabalhar e enquanto estiver na empresa vai fazer tudo o que puder para ajudar a construir o que foi combinado.

Uma das liberações mais prazerosas é permitir que cada pessoa da comunidade seja ela mesma no trabalho. Eu já passei e você também por situações em que fui forçado a adotar comportamento diferente do que nossa personalidade no lugar em que trabalhava. Que desespero! Não durou muito. Mudei de emprego. Mas o pior é quando alguém aceita isso. Ter que fazer o papel de quem você não é, é uma das coisas mais deprimentes que pode acontecer com alguém, não interessa em que nível a pessoa atue. Claro que para liberar cada um para ser ele mesmo a coisa mais importante é contratar pessoas alinhadas com a causa da empresa, que fale naturalmente a linguagem que a empresa fala, que aja como a empresa espera que ela aja. E tudo isso tem que ser verificado antes de contratar. Contratação requer convivência prévia. Não basta uma entrevista e uma dinâmica de grupo. Você não se casa com alguém assim e não deveria contratar ninguém sem convívio prévio.

Pague para as pessoas o que elas precisam para viver. Não acredite que o processo de acenar cenouras e pagar apenas variável constrói pessoas engajadas. Elas, de fato, regidas por essa batuta, se tornam mercenárias. Acabam se movendo na direção do dinheiro. Pagar o que a pessoa precisa para viver garante que no começo de cada mês a pessoa não entre em pânico pelo que tem que pagar.  Ok, você acha que isso não funciona para todos. Considere que pelo menos as pessoas num nível de fluxo de caixa mais limitado precisem disso. Em contrapartida, se elas não fizerem tudo que devem fazer nesse processo elas não merecem estar no time. Simples assim. Não existe a desculpa de que se eu não deixar as pessoas ameaçadas por não ganharem se não trabalharem vai fazê-las trabalhar melhor. Libere-as para estarem com corpo e alma no trabalho.

A última liberação é a da autonomia. Líderes verdadeiros dão autonomia para quem merece. De novo, contratar bem é fundamental. Se eu não contratar bem não posso nem falar em autonomia. Para que tudo dê certo, não se esqueça da única característica que ninguém pode deixar de ter para merecer trabalhar nesses ambientes: autodisciplina. Sem essa característica o líder vai ter que cobrar gente que não faz o que combinou o tempo todo. A Nordstrom, marca quase centenária de varejo nos Estados Unidos, tem uma máxima. Todo o processo da empresa está definido num cartaz pregado em muitas paredes para que todos possam ler e se lembrar sempre:

Em qualquer situação tome a decisão e aja. Se você errar a responsabilidade é nossa. Afinal, nós te contratamos, nós te treinamos. Memorável. E não é questão de coragem. É lição de casa bem feita. Preparação enorme para poder liberar.

Entendeu? Acreditou? Eu já pratiquei e já vi não muitos líderes que liberam,praticar isso com muito sucesso. As equipes se transformam. O produto final é que as pessoas fazem o que foi combinado sem terem que ser vigiadas ou cobradas. Voluntariamente. Não é mágica. É entender o que faz o ser humano se sentir bem. A ponto de querer doar  para marcas e líderes que mereçam. Fazer o bem inspira e libera todos a fazerem bem. Sempre. Coisa de líder CEO novo.

Edmour Saiani
Edmour Saiani [email protected]

Edmour Saiani é sócio-fundador da Ponto de Referência e especialista em Gestão de Atendimento, Inovação e Tendências.

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