Em 2009, Simon Sinek fez uma das maiores contribuições para a administração moderna. Enquanto quase todos discutiam estratégia, eficiência, produtividade, inovação e crescimento, ele chamou a atenção para uma pergunta que parecia simples, mas que poucas empresas sabiam responder:
Por que existimos?
Seu Golden Circle tornou-se um dos modelos mais conhecidos do mundo porque deslocou o centro da gestão do produto para o significado. Empresas inspiradoras, dizia Sinek, começam pelo Why. Depois explicam How. Só então apresentam What. Era uma mudança profunda para a época.
Até então, a maior parte das organizações comunicava seus produtos, seus serviços e seus diferenciais. Simon Sinek mostrou que empresas verdadeiramente inspiradoras começam por algo muito mais poderoso: a razão da sua existência. O Golden Circle tornou-se um marco porque levou milhares de líderes a refletirem sobre uma pergunta que quase não fazia parte da administração: porque existimos? Os grandes modelos de gestão, entretanto, evoluem. E foi justamente refletindo sobre o Golden Circle que comecei a perceber que ainda havia espaço para um novo avanço.
Essa conversa começou numa reunião do Capitalismo Consciente em Chicago, quando encontrei o Simon e disse pra ele: “Porque não acrescentar What For no Golden Circle?” Ele me olhou, falou: “Ok”, virou as costas e foi embora. Na minha visão, o modelo de Simon Sinek permanece absolutamente atual. Mas acredito que ele pode ser ampliado. Dessa reflexão nasceu aquilo que proponho chamar de Platinum Circle.
Do Golden ao Platinum Circle
O Golden Circle possui três círculos. O Platinum Circle passa a ter cinco. Os três primeiros permanecem exatamente como Simon Sinek os concebeu: What: o que fazemos. How: como fazemos. Why: porque existimos.
Mas acrescento dois novos círculos, externos aos anteriores. O primeiro deles é a Causa (What for, vulgo “Pra quê?”). Ao longo dos últimos anos, percebi que muitas empresas descobriram seu propósito, mas continuam tendo dificuldade para responder uma pergunta ainda mais importante: o que queremos transformar durante a nossa existência? Essa é a pergunta da causa.
Embora muitas vezes sejam tratadas como sinônimos, propósito e causa não são a mesma coisa. O propósito explica por que a organização existe. A causa explica qual transformação ela pretende provocar enquanto existir. O propósito dá identidade. A causa dá direção. O propósito justifica a existência da empresa. A causa justifica o impacto que ela deseja deixar no mundo.
Propósito e Causa
Uma empresa pode existir para conectar pessoas. Esse é seu propósito. Mas sua causa pode ser reduzir o isolamento social, aproximar culturas ou fortalecer comunidades. Uma empresa pode existir para cuidar da saúde. Esse é seu propósito. Sua causa pode ser aumentar a longevidade das pessoas, democratizar o acesso à prevenção ou transformar a forma como a sociedade enxerga o cuidado com a saúde.
Perceba que o propósito responde à pergunta: por que existimos? A causa responde: o que queremos transformar durante a nossa existência? Essa diferença muda completamente a forma de administrar. Quando uma empresa conhece sua causa, ela passa a utilizá-la como um filtro para todas as suas decisões. Ela orienta a inovação, direciona investimentos, define prioridades, ajuda a escolher parceiros, atrai pessoas que acreditam na mesma transformação e faz com que estratégia e cultura caminhem na mesma direção.
O Legado
Mas acredito que ainda existe um último passo. Toda causa precisa produzir consequências concretas. Por isso proponho um quinto círculo: o Legado. O legado responde a uma pergunta que deveria acompanhar toda organização ao longo de sua trajetória: como saberemos que cumprimos nossa causa? Ou, de forma ainda mais provocativa: que marcas teremos deixado no mundo quando nossa história for contada?
O legado transforma a causa em compromisso. Ele impede que a causa permaneça apenas como um discurso inspirador. Ela passa a ser observável, mensurável, perceptível. No Platinum Circle, cada círculo amplia o anterior. Fazemos alguma coisa. Fazemos de determinada maneira. Existimos por uma razão. Queremos transformar uma realidade. E medimos nossa existência pelo legado que deixamos.
A próxima evolução
Talvez essa seja a próxima evolução da administração. Porque organizações extraordinárias não são lembradas apenas pelo que produziram, nem pela forma como trabalharam, nem sequer apenas pela razão de existirem. Elas permanecem vivas pelas transformações que provocaram e pelo legado que deixaram para as próximas gerações.









